11 setembro 2011

O terrorismo islâmico e os EUA pós-11 de Setembro de 2001

Nos Estados Unidos, ocorreram 33 casos de terrorismo alegadamente islâmico, com cerca de 15 mortos (13 dos quais num único evento), após o 11 de Setembro de 2001.
Em “Terrorism Since 9/11 - The American Cases”, a equipa de John Mueller, na Universidade do Ohio, analisou 33 tentativas de terrorismo por extremistas islâmicos dentro ou fora dos EUA mas em que este país estivesse envolvido.
O primeiro caso registado por Mueller data de 22 de Dezembro de 2001, com o bombista britânico que colocou explosivos nos sapatos e embarcou num avião norte-americano, até 22 de Junho deste ano, com a prisão de dois indivíduos que adquiriram uma arma ao FBI, para ser usada contra uma base militar após “pouparem dinheiro suficiente para comprar munições e outro material”.
Bruce Schneier lembra que, dessas tentativas, poucas “são verdadeiramente reais e tantas foram criadas ou de alguma forma facilitadas pelas autoridades”, referindo-se aos casos em que existiram agentes infiltrados ou informadores.
O estudo de Mueller contabiliza 14 mortos – 13 num ataque a Fort Hood e um em Little Rock – mas aponta outros quatro casos que não integram a lista por várias razões, como o incidente em 2002 no aeroporto de Los Angeles, em que um atirador solitário matou duas pessoas aos balcões da transportadora aérea egípcia El Al (a razão podiam ser problemas financeiros e pessoais). Só os casos que foram revelados publicamente e resultaram em prisões foram registados no livro da equipa de Mueller.
Este lista outros trabalhos em que o número de casos examinados envolvendo actividade jihadista é divergente, apesar de alguns casos estarem presentes no seu estudo: 46 (Rand, até final de 2009), 26 (Stanford, até Maio de 2010), 44 (Congressional Research Service, até Novembro de 2010) ou 105 (Georgetown Journal of International Affairs, até 2010).
Mueller recorda que em todos os casos em que houve mortes nos EUA, isso ocorreu com disparos de armas, não com bombas, e que “o volume da actividade terrorista doméstica foi muito maior nos anos 70” do século passado, com 60 a 70 eventos, a maioria usando bombas e com 72 mortos registados entre 1970 e 1978.
Faltam ainda cinco mortos nos ataques por antrax, ainda em 2001, que semearam o pânico nos EUA, mas o caso foi encerrado em 2010 com uma acusação a um cientista militar norte-americano – acusação de que o próprio Departamento de Justiça parece duvidar.
Na Europa, e com excepção do ataque ao metropolitano de Londres, os “extremistas muçulmanos não conseguiram obter quaisquer bombas para explodir na Grã-Bretanha nos últimos 10 anos”.
Será falta de bombistas suicidas? No Afeganistão, “metade dos bombistas suicidas consegue apenas matar-se a si próprios”. Já nos 33 casos relatados pela investigação de Mueller, apenas três foram suicidas.
Nenhum dos intervenientes dos ataques tinha ligações efectivas à al-Qaeda – embora alguns tenham viajado para se lhe juntar ou aos talibãs e, para Mueller, a “principal força” para estes casos – muito mais do que a religião - foi a política externa norte-americana, com “as guerras no Iraque e no Afeganistão em particular e também o apoio do país a Israel no conflito palestino”.
O trabalho de Mueller aborda ainda a proximidade dos terroristas aos alvos como demonstração da inexistência de qualquer planeamento estratégico, assim como de interligação entre os casos. Em 2005, em Los Angeles, uma lista de alvos apontava para instalações a cerca de 30 quilómetros do apartamento onde viviam. Nesse sentido, o livro recorda pela similitude o caso de um neo-nazi que, na Noruega, “a caminho de explodir uma sinagoga, apanhou o comboio numa direcção errada e acabou por dinamitar uma mesquita”.
Ao fim de 10 anos e de um investimento estimado em 1000 biliões de dólares no anti-terrorismo (75 mil milhões de dólares anuais, pelo menos), Schneier considera que a política norte-americana passou por um “reforço do medo” (um analista conselheiro da RAND discorda deste e de outros "mitos" sobre o 11 de Setembro). Quem ganhou com isso?
A população norte-americana tornou-se uma “força de vigilância”, dando dicas às autoridades, com algumas a resultarem em prisões, ou agindo por conta própria, como no caso do “bombista do sapato”.
Isto ocorre igualmente na população muçulmana americana que contribuiu, em 48 das 120 ocorrências de prisão registadas nesta comunidade, com a informação inicial. Esta comunidade ficou tão preocupada com os extremistas que acabou por “entregar pessoas que se vieram a revelar serem informadores disfarçados” das autoridades norte-americanas.
Os autores dos atentados registados “auto-radicalizaram-se” e, apesar de procurarem companheiros também radicais, “o seu caminho foi principalmente por eles escolhido”. Mueller considera assim “implausível” a existência de “células adormecidas”, um cenário apresentado após o 11 de Setembro mas entretanto “substancialmente dissipado”.
Num relatório de 2005, “mantido secreto por alguma razão”, segundo Mueller, o FBI e outras agências governamentais reconheciam que “após anos de investigação bem financiada, tinham sido incapazes de descobrir uma única célula adormecida da al-Qaeda nos Estados Unidos”. Em 2007, o foco do FBI passou da al-Qaeda para os grupos internos e para os “lobos solitários” que, segundo o director da CIA, Leon Panetta, foram os únicos que “conseguiram matar alguém nos Estados Unidos desde o 11 de Setembro” – mas apenas em dois dos 1900 casos registados “de incidentes terroristas nas últimas quatro décadas”.
E assim, excepto no plano político, terminou a guerra ao terror já há alguns anos, aparentemente sem se terem retirado as devidas lições.
[cartoons daqui]

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