26 janeiro 2014

O silêncio da praxe ou a antecâmara da sociedade da obediência


- Onde estavam, os que hoje se preocupam com as praxes, quando esta "Aluna sentiu-se mal durante a praxe e morreu meses depois": Cristina Ratinho, de 26 anos, nunca recuperou da paragem cardio-respiratória que teve numa praxe académica, em Setembro do ano passado [2012]. Ex-aluna do curso de Gestão [no Instituto Politécnico de Beja], deixa uma filha de quatro anos.

- O que fazem as universidades [e os professores] quando sabem que "as praxes trouxeram de novo a violência para as universidades. Entretanto, surgem também movimentos anti-praxes. Os membros destes movimentos afirmam que as denúncias não chegam nem a metade do que realmente é na verdade. Atualmente, pelo menos em Coimbra, o caloiro já pode optar por ser praxado ou não, no entanto tem consequências se a sua decisão for negativa, não pode usar traje académico nunca mais."

- Que respeito profissional merece alguém que andou nas praxes, por exemplo, na Universidade do Porto e que - além de apoiar um código em que existem caloiros e caloiros estrangeiros, o que só por si é uma discriminação xenófoba para quem apela à integração no espírito universitário - evoluiu da categoria de doutor de merda para merda de doutor, antes de ser veterano por estar há mais tempo do que devia para terminar o curso?

- Porque ninguém questiona o actual ministro do Ensino Superior sobre as praxes [já questionaram, fica para quinta-feira próxima], ao contrário do que sucedeu antes e levou, em 2009, o então ministro da Ciência e Ensino Superior a avisar "que os abusos nas praxes académicas serão denunciados ao Ministério Público" e pretendia "responsabilizar quer os seus autores quer as direcções de instituições que permitam que aconteçam".
Assim, "Numa mensagem enviada aos responsáveis máximos das Universidades públicas e privadas e Politécnicos, o ministro frisa que "a tolerância de muitos tem-se tornado cúmplice de situações sempre inaceitáveis" com danos físicos e psicológicos.
Mariano Gago repudia as "práticas de humilhação e de agressão física e psicológica" com carácter "fascista e boçal" inflingidas aos caloiros no ensino superior, "identificadas ou desculpadas como 'praxes' académicas".
Pela "extraordinária gravidade" de algumas destas práticas, impõe-se "uma atitude de responsabilidade colectiva" que "não permite qualquer tolerância" com "insuportáveis violações do Estado de Direito" no meio académico."

- Depois da exibição de "Praxis", na RTP1, os Bombeiros de Beja que cederam espuma anti-fogo para a praxe vão ser inquiridos sobre o assunto?

- Depois da exibição pela TVI de relatórios dos praxantes com "fichas individuais, com perfis traçados de personalidade" e de pontos fortes e fracos dos praxados - o que configura dados pessoais e quando se pode "Exigir que os seus dados sejam recolhidos de forma lícita e leal" - a Comissão Nacional de Protecção de Dados já abriu algum inquérito?

- Confiava o seu animal de estimação a este ex-Dux da Lusófona: "O meu curso e faculdade dentro da instituição da ulht é completamente independente do resto da instituição, assim como a nossa comissão de praxe, o nosso código e conduta de praxe!"
Perante tanta independência, porque não estudam em casa e se candidatam aos exames?

- Como diz Henrique Tigo, membro da COPA da Universidade Lusófona, "Não se pode confundir Praxe Académica com as «pseudo-praxes», executadas apenas por indivíduos ignorantes na matéria. A Praxe não pode nunca ser sinónimo de humilhação ou de actos de violência barata levados a cabo por uns quantos frustrados que não sabem o que são as tradições académicas e só usam um traje para se pavonearem na esperança de serem notados. São indivíduos destes os responsáveis pelo actual estado moribundo da verdadeira Praxe Académica que tem vindo a dar lugar a ditaduras absurdas, um pouco por todo o lado, que partem de ignorantes que desejam que a Praxe seja aquilo que lhes apetecer".

Na realidade, tudo isto serve a uma sociedade da obediência. "Como na tropa, as praxes preparam para o campo de batalha. E para a obediência cega aos mais graduados. Mesmo que as ordens venham de alguém que só tem a sua burrice, a capacidade de chumbar resmas de anos como galões. Passando no teste, as vítimas poderão um dia, oh suprema felicidade!, vir a oprimir os seus próprios recrutas".

"De facto, a praxe mata, às vezes o corpo, mas sempre a cabeça".

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