19 janeiro 2015

Desvalorização salarial

Salários do privado perderam 11% em 4 anos. No Estado foi o dobro: As contas são simples: entre 2011 e 2014, o rendimento líquido médio nominal dos trabalhadores do sector privado diminuiu 5,7%, mas se considerarmos o efeito da inflação, o ganho médio real de 2014 - o poder de compra - é inferior ao de 2011 em 11,6%.

Para os trabalhadores da Função Pública, a redução foi ainda maior. A perda de poder de compra foi o dobro. "Entre 2010 e 2014, como consequência do efeito conjugado do corte das remunerações nominais, do aumento enorme de impostos e dos descontos para a ADSE, o poder de compra reduziu-se em 22,1%", revela um estudo realizado pelo economista Eugénio Rosa. E este ano "o poder de compra destes trabalhadores continuará inferior em 21,4% ao que tinham em 2010".


Memória? André Freire em 2012: A desvalorização salarial e o excecionalismo português: Perante uma tão profunda desvalorização do trabalho, com consequências tão graves nas vidas dos portugueses e na qualidade dos serviços, como explicar a apatia geral? Não é fácil, mas eu avanço três hipóteses. Primeiro, deixaram de funcionar os contrapesos no sistema político. Excetuando algumas declarações inconsequentes, sobre "iniquidades nos cortes de subsídios" e sobre a necessidade de apoio ao crescimento, Cavaco tem dado cobertura a tudo sem sequer pedir a devida fiscalização constitucional, mesmo quando ela era evidentemente necessária (cortes de subsídios, novas leis laborais, etc.). E o PS abdicou de ser oposição, preferindo trair os seus eleitores (a quem tinha prometido que não acompanharia derivas radicais além troika) para poder aceitar, com as suas "abstenções violentas", tudo o que vem do governo. Segundo, a atitude da generalidade dos jornalistas e comentadores que, com a sua débil cultura política, se especializaram em alimentar o cinismo político: apesar de muitas das mais graves medidas de desvalorização salarial não estarem no memorandum e contrariarem promessas eleitorais, tudo é aceite com a ideia cínica de que os políticos em campanha dizem uma coisa e depois fazem outra. Mas há países que levam a democracia a sério: veja-se o abaixamento da idade da reforma, etc., que está a ocorrer em França, conforme as promessas eleitorais e a contrário das previsões de jornalistas e comentadores portugueses... Por último, temos a falta de entendimentos entre as esquerdas portuguesas, incapazes de gerarem uma alternativa credível e minimamente consistente ao statu quo. Perante tal falta de sentido de alternativas, resulta quase compreensível a alienação dos portugueses: incapazes de se erguerem para defender os direitos fundamentais, preferem concentrar as energias na alienação futebolística, num estado de quase "morte cerebral" (Pacheco Pereira).

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