23 fevereiro 2015

Paris

a ver também "Paris Mapped in Style", por Jenni Sparks:

JANAR: do fruto da saúde e dos necropolíticos

Jornal Abreviado das Novidades da Assembleia da República (JANAR) é um jornal (in)dependente da Assembleia da República, com notícias sempre atrasadas: 

A Sr.ª Presidente: — Srs. Deputados, Srs. Membros do Governo, com os cumprimentos da Mesa, Srs. Jornalistas e Srs. Funcionários, está aberta a sessão. 
Eram 15 horas e 10 minutos [de 9 de Janeiro de 2015]. 


Do fruto da saúde e dos necropolíticos
A Sr.ª Luísa Salgueiro (PS): — Os portugueses têm hoje medo de ir aos hospitais públicos.
Perante isto, como reage o Governo? Lava as mãos, como Pilatos, e remete as responsabilidades para as «instituições». É uma atitude de hipocrisia e de cobardia política!

Aplausos do PS.

Sobretudo, quando o Ministro da Saúde sabe que anulou totalmente a autonomia das instituições.

O Ministério da Saúde sabe bem que colocou tudo sob a sua direta dependência, desde a contratação de um maqueiro à aquisição da maca com que ele pode ajudar a deslocar um doente.

O Sr. Miguel Santos (PSD): — Sr.ª Presidente, Sr.ª Deputada Luísa Salgueiro, antes de mais, quero cumprimentá-la, por terem trazido este tema e requerido este debate, porque é, sobretudo, uma oportunidade para desmistificar algum do discurso que o PS tem tido, nos últimos dois dias, à volta da problemática relacionada com a acumulação de utentes nas urgências dos hospitais. E a primeira desmistificação relaciona-se com o facto de a Sr.ª Deputada referir que se trata de um problema novo.

A Sr.ª Luísa Salgueiro (PS): — Não disse isso, disse o contrário!

O Sr. Miguel Santos (PSD): — De facto, Sr.ª Deputada, não se trata de um problema novo, é um problema que acontece, infelizmente, de forma regular, todos os anos. Aliás, basta ver as notícias

Portanto, não se trata, de facto, de um problema novo. É um problema que surge muito simplesmente porque existem picos de afluência de utentes às urgências dos hospitais e, vá-se lá saber porquê, esses picos, por norma, não acontecem na primavera, não acontecem no verão — excetuando uma região do País muito específica — nem acontecem no Outono, acontecem exatamente no inverno. Ou seja, quando temos urgências de hospitais organizadas, com atendimentos médios de 200 utentes e, de repente, num determinado dia, fruto da gripe, fruto do clima, acabam por comparecer 300, 400 ou até 500 utentes, como sucedeu num hospital, naturalmente existe uma necessidade de se adaptarem os tempos de resposta.

Aliás, como a Sr.ª Deputada sabe, há um procedimento tomado por este Governo desde o início da legislatura: em Portugal, são contratados todos os médicos disponíveis no mercado.

Vozes do PSD: — Muito bem!

O Sr. Miguel Santos (PSD): — Portanto, a diminuição de recursos é resultante de aposentações,…

O Sr. Miguel Santos (PSD): — … mas é compensada pela contratação dos médicos, e é uma situação que vai acabar por ser resolvida, fruto das medidas tomadas.

A Sr.ª Carla Cruz (PCP): — O Sr. Ministro e o Governo vêm, agora, dizer que a situação decorre da falta de médicos no Serviço Nacional de Saúde. O Sr. Ministro sabe que é por opção política deste Governo, pelas medidas que este e anteriores Governos tomaram, que levou a que muitos profissionais de saúde abandonassem precocemente o Serviço Nacional de Saúde. Há muitos médicos que saíram precocemente, que pediram a aposentação, porque não concordam com esta política, e esses são profissionais que fazem falta ao Serviço Nacional de Saúde.

O Sr. José Luís Ferreira (Os Verdes): — Ao contrário do que diz o Governo, designadamente o Sr. Secretário de Estado Adjunto do Ministro da Saúde, o caos que se vive nas urgências hospitalares nada tem a ver com o aumento da procura. Os Srs. Membros do Governo sabem melhor que ninguém que o número de casos atendidos nas últimas semanas ao nível das urgências hospitalares corresponde aos números verificados há um ano e, em alguns casos, até, com valores mais baixos do que os registados no ano passado.

Portanto, não é verdade que a vergonha que o País está a viver em termos de urgências hospitalares se deva ao aumento da procura. (...)

A Sr.ª Teresa Caeiro (CDS-PP): — Relativamente à previsibilidade dos picos, tenho a dizer que é evidente que esta previsibilidade era conhecida tanto desta tutela como da tutela, durante praticamente sete anos, do Partido Socialista. E não foi por isso que não deixou de haver, aqui e acolá, situações de crise e de excesso e também falta de profissionais para responderem às necessidades.

Apesar de todas as medidas que possam ser tomadas para acautelar os previsíveis picos de acesso às urgências, há sempre imponderáveis — tal como na nossa vida — que não podem acautelados, como, por exemplo, a falta de médicos por baixa, por doença.

Vozes do CDS-PP: — Pois, claro!

A Sr.ª Teresa Caeiro (CDS-PP): — Basta registar-se a falta de meia dúzia de médicos para que todo o sistema, toda a estrutura de uma unidade, que está interligada, não seja capaz de atender a todas as necessidades.

Vozes do CDS-PP: — É verdade!

A Sr.ª Teresa Caeiro (CDS-PP): — Também gostaria de dizer que, de facto, não é aceitável que as pessoas esperem durante 6, 8, 20, 22 horas num serviço de urgências. Mas isto são carências que vão, certamente, ser acauteladas. O nosso SNS é excelente? É perfeito? Não é! Mas se algum Deputado ou alguma Deputada conhecer um serviço de saúde perfeito neste mundo agradeço que nos digam qual é. (...)

A Sr.ª Teresa Caeiro (CDS-PP): — Porque é que não agendam debates de atualidade sobre o aumento de consultas externas, o aumento de cirurgias programadas, o aumento de cirurgias em ambulatório, a redução drástica do tempo de espera para cirurgia, os horários alargados de funcionamento dos cuidados de saúde primários, o aumento de utentes isentos de taxas moderadoras? Temos praticamente 6 milhões de utentes isentos de taxas moderadoras e temos um aumento da ordem dos 3000 internos. (...)

A Sr.ª Maria Antónia Almeida Santos (PS): — Porque é que a Sr.ª Deputada não agenda? Tem o mesmo poder de iniciativa que nós! (...)

O Sr. João Semedo (BE): — Sr. Ministro, porque é que era previsível e evitável? Era previsível e sobretudo evitável se a sua política não fosse exclusivamente determinada pelo corte e pela poupança, porque, na realidade, o senhor preferiu poupar em vez de reforçar os mecanismos de resposta do Serviço Nacional de Saúde.

Sr. Ministro, não venha com a desculpa da sazonalidade da gripe! O problema não está na gripe, nem na sazonalidade dela. O problema é que a sua política, o senhor e os efeitos da sua política não são sazonais, são permanentes e aturamo-los durante todo o ano!

Aplausos do BE.

Sr. Ministro, a sua responsabilidade é enorme nesses casos. A primeira morte conhecida num serviço de urgência ocorreu em novembro de 2013. E o que é que o senhor fez? Primeiro, recusou-se a ordenar o inquérito e aceitou uma peritagem do hospital. Foi denunciado que essa peritagem era uma mentira, mas entre tantas mentiras algumas verdades se souberam.
Ouçamos o que diz o relatório: «A doente entrou às 17 horas; foi-lhe dada uma pulseira amarela; o prazo máximo de atendimento era de 60 minutos; foi observada pelos médicos às 23 horas e 3 minutos», ou seja, seis horas depois — seis vezes mais do que o tempo de espera esperado. E o que é que diz o relatório do tal perito? Diz que se verificou que a assistência prestada tinha sido a mais adequada. Como é que o senhor aceita uma explicação destas? (...)

O Sr. Ministro da Saúde (Paulo Macedo): — Queria fazer um esclarecimento: no dia 24 de dezembro, véspera de Natal, estive na urgência do Hospital de Santa Maria, que estava totalmente tranquila.

A Sr.ª Rita Rato (PCP): — Vá para as periferias, Sr. Ministro!

O Sr. Ministro da Saúde: — No dia 1 de janeiro, estive na urgência do Hospital de Guimarães. (...)

O Ministério da Saúde é o maior contratador português e contratou mais 2500 médicos, em termos líquidos, neste período, face a 2010. Esta semana Srs. Deputados, contratou 1700 médicos.

A Sr.ª Maria Antónia Almeida Santos (PS): — Não chega, Sr. Ministro!

O Sr. Ministro da Saúde: — Contratou 1000 enfermeiros em 2014, quase o dobro de 2013.

A Sr.ª Maria Antónia Almeida Santos (PS): — Os que contratam não cobrem os que saíram.

O Sr. Ministro da Saúde: — (...) pusemos, nestes anos, 3000 milhões de euros nos hospitais — nós, ou seja, este Governo —, tirámos todos os hospitais da falência técnica. É esta a herança que vamos deixar, ao contrário daquilo que recebemos.

A Sr.ª Carla Cruz (PCP): — É importante explicar, Sr. Ministro, que estes 1700 médicos que disse que contratou não são médicos em plena função, são médicos que vão começar o seu internato, a sua formação na especialidade, que não têm autonomia e precisam de supervisão. (...)

A Sr.ª Carla Cruz (PCP): — Entre 2010 e 2013, de acordo com os dados oficiais do INE, aposentaram-se do Serviço Nacional de Saúde 1050 médicos de cuidados de saúde primários sem que tenham sido repostos, por decisão do Governo. Mais uma vez, a realidade contraria a propaganda do Governo e põe a nu a demagogia que tem feito em torno da admissão de mais médicos, porque o número de novos médicos não cobre sequer as saídas.

O Sr. João Oliveira (PCP): — Exatamente!

A Sr.ª Carla Cruz (PCP): — A política de desinvestimento e de ataque ao Serviço Nacional de Saúde radica na política economicista e de cortes que o Governo tem levado a cabo com a redução do financiamento ao SNS, mas também na transferência para os privados da prestação de cuidados de saúde. Nos últimos quatro anos cortaram 2,3 milhões de euros ao SNS e, em 2015, o Governo impõe mais um corte de 100 milhões de euros. Mas o favorecimento dos privados, esse, continua.

Em 2012, os hospitais públicos atenderam menos 4,8% de episódios de urgência do que em 2010, enquanto, no mesmo período, os hospitais privados realizaram 6,5% do total dos atendimentos, o que perfaz um aumento, neste setor, de 11,6%. (...)

O Sr. Miguel Santos (PSD): — Sr.ª Presidente, Srs. Deputados: Estamos no fim do debate e há um aspeto que entendemos ser absolutamente inaceitável trazê-lo para esta galeria e utilizar como argumento para debate.

A Sr.ª Luísa Salgueiro (PS): — Galeria é lá em cima! (...)

O Sr. Miguel Santos (PSD): — É uma falta de respeito para as próprias famílias o Sr. Deputado querer tirar dividendos destes casos dramáticos, e dividendos políticos.

Aplausos do PSD.

Não se ria, Sr. Deputado, porque não tem piada rigorosamente nenhuma, não tem piada rigorosamente nenhuma!

O Sr. João Semedo (BE): — Ri-me dos aplausos, Sr. Deputado!

O Sr. Miguel Santos (PSD): — Aquilo que o Sr. Deputado faz e que é recorrente — porque não o fez só hoje, já antes o fez várias vezes — pode designar-se por uma necropolítica. O Sr. Deputado é um necropolítico! Utilizar o drama das pessoas para instrumentalizar e tentar algum tipo de ganho político é absolutamente lamentável e nós não aceitamos. (...)

O Sr. Miguel Santos (PSD): — E, Srs. Deputados, em relação aos médicos, em Portugal são contratados todos os médicos que estão disponíveis para ingressar no Serviço Nacional de Saúde, todos aqueles que estão disponíveis. Agora, não é possível, em determinadas situações, concorrer com opções pessoais de alguns médicos que pretendem emigrar, ir para o estrangeiro, porque recebem 10 000 € por mês. Nesses termos, de facto, o Serviço Nacional de Saúde não tem qualquer possibilidade de concorrer com este tipo de ofertas.

A Sr.ª Carla Rodrigues (PSD): — Muito bem!

O Sr. João Oliveira (PCP): — Se os senhores não os maltratassem, eles ficavam cá!

O Sr. Miguel Santos (PSD): — Mas parece que havia um caso — pelo menos, já apareceu noticiado e sobre isso ninguém fala — de um distinto médico, presumível futuro Ministro da Saúde do Partido Socialista, dizem, que, parece, ganha mais de 10 000 €, mas esses são casos que não são aceitáveis, naturalmente.

Aplausos do PSD e do CDS-PP.

Protestos do PS. (...)

O Sr. Presidente (Guilherme Silva): — Está encerrada a sessão.
Eram 18 horas e 48 minutos.

22 fevereiro 2015

JANAR: dos jovens e das citações, da Madeira e da saúde, também da Grécia

Jornal Abreviado das Novidades da Assembleia da República (JANAR) é um jornal (in)dependente da Assembleia da República, com notícias sempre atrasadas: 

A Sr.ª Presidente: — Srs. Deputados, Srs. Jornalistas, Srs. Funcionários, está aberta a sessão. 
Eram 15 horas e 7 minutos [de 8 de Janeiro de 2015]. 


Dos jovens e das citações
O Sr. Cristóvão Simão Ribeiro (PSD): — Sr.ª Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: «É de grande monotonia a nossa história financeira (…) gasta-se mais do que se tem, fazemos défice e pagamos tudo com empréstimos». Estas palavras não são minhas, têm 114 anos e foram proferidas, no Relatório e Propostas da Fazenda, por Anselmo de Andrade.

Sr.as e Srs. Deputados, 114 anos depois, há quem queira e tudo faça para que isto continue a ser uma verdade.

[Onde vão os deputados buscar estas citações em segunda mão? Neste caso, a David Justino, que a escreveu em 2004 e a tem repetido.]

Neste ano decisivo de 2015, quero aqui deixar uma garantia: a de que a juventude portuguesa está cá para dar o seu contributo ao País.

[Em 2013, em algo que podia ser "extremamente positivo", era "provável que tenham saído do país, nesse ano, cerca de 110 mil portugueses".]

O Sr. Pedro Delgado Alves (PS): — há 128 000 desempregados jovens, a taxa é de 34,5%, sendo a maior subida mensal no desemprego juvenil nos 28 Estados-membros da União Europeia, há uma quebra de 21,4% no emprego jovem, são os dados de hoje...

A Sr.ª Mariana Mortágua (BE): — O grande projeto de que se orgulha e vem aqui hoje apresentar foi o projeto que retirou qualquer esperança de futuro a um jovem neste País, foi o projeto que mandou os jovens emigrar, foi o projeto que aumentou o desemprego para os jovens, foi o projeto que tornou precária a vida dos jovens. (...)

E fizeram mais do que isso: usaram os direitos da geração dos nossos pais,…

O Sr. Hugo Lopes Soares (PSD): — Não, não!

A Sr.ª Mariana Mortágua (BE): — … que os conquistou a pulso, para retirar direitos à nossa geração,…

O Sr. Hugo Lopes Soares (PSD): — É o contrário!

A Sr.ª Mariana Mortágua (BE): — … e essa é uma chantagem inaceitável e faz parte do grande projeto do PSD que hoje o Sr. Deputado nos apresenta.

A Sr.ª Rita Rato (PCP): — É importante relembrar que o Primeiro-Ministro deste País, assim que tomou posse, a primeira coisa que fez foi dizer aos jovens portugueses para emigrarem,…

O Sr. Amadeu Soares Albergaria (PSD): — Falso!

A Sr.ª Rita Rato (PCP): — … que não faziam cá falta, que emigrassem porque não queriam resolver os problemas dos jovens portugueses.

O Sr. Hugo Lopes Soares (PSD): — Não é verdade!

O Sr. Amadeu Soares Albergaria (PSD): — Isso é falso! (...)


Da Madeira 
O Sr. Rui Barreto (CDS-PP): — Sr. Deputado, eu estou muito à vontade. Sabe porquê? Estou muito à vontade, porque o CDS, da mesma forma que criticou o Partido Socialista pela forma como geriu Portugal, criticou sempre, de forma justa e legítima, o modo como o Dr. Jardim governou nos últimos 14 anos.

Estamos muito à vontade sobre essa matéria. E talvez fosse interessante, Sr. Deputado, que também dirigiu e tão bem conhece o Partido Socialista na Madeira, que explicasse por que é que, ao fim de mais de 30 anos, o CDS é o líder da oposição na Madeira, tendo relegado Partido Socialista para terceiro partido.

Vozes do PSD e do CDS-PP: — Bem lembrado! (...)


Da saúde
A Sr.ª Carla Rodrigues (PSD): — Sr.ª Deputada, sabe o que é que lamento ainda mais? Lamento que o PCP se limite a gritar contra o Governo, contra este grupo parlamentar, contra tudo e contra todos, até contra os profissionais de saúde, que tanto se empenharam para dar uma resposta neste período,...

Protestos do PCP.

… e não apresente uma única solução para esta situação. Qual é a solução, Sr.ª Deputada?

A Sr.ª Maria Antónia Almeida Santos (PS): — A contratação de mais médicos!

A Sr.ª Carla Rodrigues (PSD): — A contratação de mais médicos? Contratámos mais 1700! Onde é que vamos buscar mais médicos? Diga-nos, se tiver a resposta! Talvez a Cuba, não sei… Diga-nos! (...)


Da Grécia 
A Sr.ª Helena Pinto (BE): — Neste quadro, temos, de um lado, Angela Merkel, Comissão Europeia, Banco Central Europeu, FMI e até o Governo português, que entram numa espiral de pressão e de chantagem sobre o povo grego porque, como tudo indica, a mudança pode ser uma realidade nas próximas eleições, que se realizarão a 25 de janeiro. Ainda ontem, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, se juntou ao coro de pressões contra o povo grego. (...)

O Sr. José Ribeiro e Castro (CDS-PP): — Todos os comentadores põem em evidência esta evolução do partido Syriza.

O Deputado George Stathakis fez, recentemente, uma digressão europeia para explicar que «o partido de hoje já não é o mesmo de 2012». Deu uma entrevista a um jornal, que não é do meu campo político, o Libération, dando a garantia de que, e cito, «Permaneceremos na zona euro. Queremos negociar a dívida com as autoridades europeias para a tornar sustentável.», logo acrescentando que também é uma posição defendida pelo atual Governo conservador de Antonis Samaras.

Pergunto-me: a irritação do Bloco de Esquerda dever-se-á ao afastamento do partido Syriza da linha mais radical que o Bloco de Esquerda sustenta?

A Sr.ª Mariana Aiveca (BE): — Não está a perceber! (...)

A Sr.ª Helena Pinto (BE): — No primeiro resgate, a dívida pública grega era de 129,7% do PIB; no segundo resgate, em 2011, era de 146% do PIB; e, atualmente, é de 174,1% do PIB. Ou seja, é sempre a disparar.

Sabe quantas pessoas, na Grécia, vivem em situação de pobreza? 3,8 milhões de pessoas! Não sei quais são os resultados positivos deste Governo, mas sei que o povo grego está a sofrer e que a sua ânsia de mudança é perfeitamente legítima. (...)

O Sr. Presidente (Guilherme Silva): — Srs. Deputados, está encerrada a sessão. 
Eram 18 horas e 57 minutos.

Sessão da tarde: ouvir Tarantino

16 fevereiro 2015

Sacos de plástico - qual a fonte destes números e objectivo das discrepâncias?

Diz o Governo, sobre os sacos de plástico:
- "Portugal chegou a atingir as 466 unidades por pessoa, por ano. O objetivo é que, em 2015, cada português use, em média, 50 sacos plásticos e 35 em 2016."
- "Os sacos plásticos leves, utilizados em média apenas por 25 minutos, podem permanecer no ambiente mais de 300 anos e constituem um risco significativo para as aves e animais marinhos, que muitas vezes confundem sacos de plástico com alimento. Os sacos plásticos leves representam ainda um problema grave em termos de poluição marinha, já que 70% do lixo marinho tem origem no plástico."

Se Portugal "chegou a atingir as 466 unidades por pessoa", quantas "atinge" agora?

Em 2011, os norte-americanos chegavam a "mais de 500 por consumidor" - estávamos assim tão próximos?

"Remember that each person uses about 83 bags a year. If there are four people in your family, that's 332 plastic bags less every year."

E os 300 anos, surgem de onde? Daqui? "Too many plastic bags is a great waste of natural resources," retired Communist Party cadre Liu Zhidong says through a translator. "When burnt, they produce poisoning smoke, and if buried underneath the ground they need more than 300 years to be degraded."

Cada um revela os números que quer e neste estudo, por exemplo, as conclusões apontam a falta de testes normalizados...

Na realidade, esta questão é ambiental ou para poupar na importação de petróleo, algo que o Governo não quis assumir? Por exemplo:
- Besides cutting back on litter, Ireland’s tax has saved approximately 18 million liters of oil.
- China Sacks Plastic Bags: Ban could save 37 million barrels of oil and alleviate "white pollution"

Porque, se é uma decisão ambiental, não se explica como estão isentos os seguintes sacos de plástico leves: ...
c) Sacos expedidos ou transportados pelo sujeito passivo para as Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira;
d) Sacos sem alças, disponibilizados no interior do ponto de venda de mercadorias e produtos, que se destinem a entrar em contacto, ou estejam em contacto, em conformidade com a utilização a que se destinam, com os géneros alimentícios...
e) Sejam utilizados em donativos a instituições de solidariedade social.

Portanto, um espertalhaço vai ao supermercado, diz que os sacos são para levar para os Açores, Madeira ou para uma ISS, e não tem de pagar os 10 cêntimos por cada um. Estou errado ou isto é feito mesmo de propósito?...


04 fevereiro 2015

Perceber o Syriza e porque a Alemanha teme a Grécia

O que dizia Alexis Tsipras em Janeiro de 2014: "A New Deal for Europe. The European economy has suffered 6 years of crisis, with average unemployment above 12 percent and the dangers of a 1930s-style deflation on its doorstep. Europe could and should collectively borrow at low interest rates to finance a program of economic reconstruction and sustainable development with emphasis on investment in people, technology and infrastructure. The program would help crisis-hit economies to break free from the vicious circle of recession and rising debt ratios, create jobs, and sustain recovery. The USA did it. Why couldn’t we?"

O que dizia o programa eleitoral do Syriza em Setembro de 2014: "A «European New Deal» of public investment financed by the European Investment Bank" [e diferença relativamente a Portugal: "considering the huge effort that will be required to restore pensions, our government, instead of selling-out public property, it will transfer a part of it to social security funds"].

Para entender a renovada agressividade da Alemanha contra a Grécia, eis o que dizia o Syriza no seu programa: "we declare once again that the issue of the Nazi Occupation forced loan from the Bank of Greece is open for us. Our partners know it. It will become the country’s official position from our first days in power".

O que dizia Thomas Piketty em Janeiro de 2015: "Dans l'histoire, ce qu'on observe, c'est que des pays comme la France ou l'Allemagne qui ont eu des niveaux de dette publique de 200% du Pib en 1945, supérieure à la Grèce, ils s'en sont débarrassés par l'inflation ou la répudiation pure et simple de la dette sinon, ils auraient toujours à la payer aujourd'hui"

O que dizia Albrecht Ritschl em Junho de 2011:
SPIEGEL ONLINE: If there was a list of the worst global bankruptcies in history, where would Germany rank?
Ritschl: Germany is king when it comes to debt. Calculated based on the amount of losses compared to economic performance, Germany was the biggest debt transgressor of the 20th century.

SPIEGEL ONLINE: Greece can't compare?
Ritschl: No, the country has played a minor role. It is only the contagion danger for other euro-zone countries that is the problem.

SPIEGEL ONLINE: The Germany of today is considered the embodiment of stability. How many times has Germany become insolvent in the past?
Ritschl: That depends on how you do the math. During the past century alone, though, at least three times. After the first default during the 1930s, the US gave Germany a "haircut" in 1953, reducing its debt problem to practically nothing. Germany has been in a very good position ever since, even as other Europeans were forced to endure the burdens of World War II and the consequences of the German occupation. Germany even had a period of non-payment in 1990. 

SPIEGEL ONLINE: Really? A default?
Ritschl: Yes, then-Chancellor Helmut Kohl refused at the time to implement changes to the London Agreement on German External Debts of 1953. Under the terms of the agreement, in the event of a reunification, the issue of German reparations payments from World War II would be newly regulated. The only demand made was that a small remaining sum be paid, but we're talking about minimal sums here. With the exception of compensation paid out to forced laborers, Germany did not pay any reparations after 1990 -- and neither did it pay off the loans and occupation costs it pressed out of the countries it had occupied during World War II. Not to the Greeks, either.