27 janeiro 2005

VITAMEDIAS

Quem vigia os cães?
Já cá faltavam, as propostas de vigilantismo (só não digo salazarento por conhecer minimamente o autor) ao jornalismo.
Como de costume, chegam tarde mas com a ideia de modernismo e até de ter havido algum debate (discussão é o termo usado) sobre o mesmo lá fora e que aqui não tivémos capacidade de a fazer - o que é mentira.
Não houve qualquer discussão, apenas aproveitamento de moda para os "modernaços" dos blogues de então. O resultado foi episódico e sem resultados práticos.
Enfim, mais uma vez, são as élites de Portugal no seu melhor a propôr "soundbytes" que, não tenho dúvidas, vão pegar como relva em terreno fértil...

Diz o Jornalismo e Comunicação, sob o título "Irão os bloggers portugueses "adoptar" um repórter?": "Ha um ano discutia-se nos media e na blogosfera um fenómeno que consistia em um determinado blogue "marcar" um determinado repórter dos media clássicos destacado para fazer a cobertura da campanha eleitoral para a eleição presidencial norte-americana. Tratava-se de criar uma instância de acompanhamento crítico (tipo watchdog) da independência com que a cobertura eleitoral era feita.
Embora os processos não tenham que ser importados, não deixa de ser oportuno recolocar a questão no nosso contexto, agora que está prestes a iniciar-se uma importante campanha eleitoral e que está a pôr-se em marcha o "roadshow" dos principais partidos.
Irão os bloggers (alguns, pelo menos, mais claramente interessados pelo terreno do político ou pelo campo mediático) acompanhar de forma regular e sistemática a cobertura? de que forma? A questão não é pequena, uma vez que, neste tipo de situações e de momentos, são escassos os espaços de reflexão e de debate nos media "mainstream"."

Acho uma patetice. Isso já acontece sem ser pelas eleições. Exemplos? Luís Delgado está marcado há muito tempo, tal como José Manuel Fernandes, em diferentes blogues. São apenas dois exemplos.

Estou à vontade para falar do assunto: acho que fui o primeiro jornalista proposto publicamente para ser "vigiado". Há uns meses, precisamente depois do arranque da moda que o J&C agora lembra, um "blogger" conhecido propôs vigiar os meus escritos jornalísticos. Os links estão no arquivo ou no desse blogue - não me interessa.

Digo o que então disse: acho bem a vigilância (não no sentido policial mas sim de atenção aos media) mas questiono igualmente:
- quem vigia - nesse mesmo sentido de "watchdog" - esses "bloggers" vigilantes? Quem são, qual a sua "hidden agenda", o que tentam passar como mensagem livre e independente?
- quem vigia os provedores da comunicação social, os administradores e os convites que eles fazem a certas personalidades comentadoras, os fundos de pensões ou as empresas que as gerem?
- quem vigia - também - os modelos de trabalho e criação jornalística?
- em síntese, quem vigia os "watchdogs" (belíssimo termo, nomeadamente a parte final)?

Re-afirmo: no meu caso, estou perfeitamente à vontade para ser "vigiado" e disponibilizo-me - como já o fiz - para quem o quiser fazer a ajudá-lo no sentido de proporcionar os artigos que escrevo para que não tenham problemas no acesso e tenham mais tempo para se preocupar com o conteúdo. Mas contraponho (e não, não é nenhuma ameaça): estejam os meus vigilantes prontos para também eu os criticar.

É que esta mania de vigiar tudo e todos como forma de ser moderno é de um mau gosto extremo. Entranha-se e não se estranha. Não que os jornalistas - ou outras profissões, como os políticos ou os académicos, os médicos ou os advogados - não devam ser sujeitos a escrutínio público. Mas quando é o meu vizinho - só por ser "blogger" - que me vai vigiar e quando eu sei que ele não gosta de mim, como é que me vou defender?
E quando ele tem maior capacidade de albergar maior apoio público do que aquele que eu consigo para me defender, onde é que pára a democracia?
Lembram-se dos "vigilantes" nalgumas terras que se opunham à presença dos "ciganos" ou traficantes de droga e passeavam durante a noite, armados de paus e sabe-se lá mais o quê, mandando parar carros de pessoas honestas?
30 anos para nada: as mentes continuam na mesma. Quais "voyeurs", quais fachos no seu melhor, a modernidade protege e promove lógicas que um qualquer Salazar vivo não recusaria.
Que tristeza.

1 comentário:

  1. Caro Pedro Fonseca,

    Este post merece-me alguns comentário que, espero, sejam encarados de forma construtiva.
    1 - Antes de mais, a forma.
    Deselgante, no seu todo, sobretudo porque encosta a uma das pessoas que mais (com persistência e coerência) se tem batido por uma visão do processo jornalístico como espaço de exercício da cidadania (não apenas para jornalistas) imagens tão fortes como o 'vigilantismo' ou o 'Salazarento' (todos sabemos interpretar o uso acanhado da expressão "só não digo...").
    2 - O conteúdo.
    Refugiando-se na adjectivação exagerada (os 'modernaços' e por aí adiante) e, naturalmente, não substanciada, o texto vai-se escrevendo na perspectiva da argúcia fina de quem vê mais longe, de quem percebe os movimento sinistros da tais elites "no seu melhor", ocupadas que nem abelhinhas nos seus únicos espaços de apego à existência, os tais dos "soundbytes".
    Escusado será dizer que - a existirem - essas tais elites incluem, certamente, o Pedro Fonseca...ele próprio, senhor dos seus "soundbytes" - um exemplo: "Quem vigia os cães?".
    Mas vamos ao que realmente interessa.
    Será assim tão perigoso que um cidadão - munido desta nova ferramenta - transponha para o texto algumas das apreciações que eventualmente sempre fez, sobre o trabalho deste ou daquele jornalista, sobre a postura deste o daquele jornal. A diferença está no espaço - deixa de ser a mesa do café e passa a ser a blogosfera. O que haverá de tão pernicioso nisto?
    Da mesma forma, naturalmente, nada impede que os jornalistas esclareçam dúvidas legítimas e que, em espaço idêntico, tornem pública uma visão diferente de um qualquer episódio.
    Será assim tão mau esta aproximação dos cidadãos ao processo e às suas contingências e, pela mesma ordem de razão, dos jornalistas às dúvidas dos seus leitores/ouvintes/telespectadores?
    A conclusão do texto deixa-nos a impressão de que o seu autor parece preferir o estado de coisas em que vivemos a qualquer outra alternativa - sobretudo se incluir maior participação cívica.
    Isso é mau.

    luis santos
    http://www.atrium.weblog.com.pt

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