Ontem, quinta-feira, o assunto parecia encerrado: segundo a Rádio Renascença (RR), "Foi um membro do governo – o secretário de Estado da Administração Pública, José Leite Martins – a divulgar a informação sobre novas regras que estão em estudo para as pensões".
Ainda segundo a RR, "o mesmo governante autorizou os jornalistas convocados a divulgar na íntegra aquela informação, atribuindo-a a uma fonte oficial do ministério".
Hoje, sexta-feira e após desmentidos e erros, seis jornais e uma agência "tomam posição comum" e "reafirmam que cumpriram todas as regras da profissão, bem como o acordo feito, em colectivo e na presença de todos, com o membro do Governo que convidou os jornalistas".
Nenhum dos sete revela a fonte - cumprem o acordado com a mesma... - mas a RR está de fora deste comunicado.
Ora se a rádio de grande audiência não esteve presente no "colectivo", como soube quem foi a fonte que divulgou a informação?
Foi o secretário de Estado? Se foi, quer ir?
Ou houve protecção de fonte nos sete mas isso não impediu a partilha com quem lá não esteve?
Se sim, é, sem dúvida, uma inovadora forma de divulgação das fontes, cumprindo todas as regras da profissão.
Culturas, economia e política, tecnologia e impactos sociais, media, contaminantes sociais, coisas estranhas... Cultures, economy and politics, technology and social impacts, media, social contamination, weird stuff...
28 março 2014
O pseudo-serviço público que pagamos pela RTP
Jornalismo oculto no Telejornal da RTP: É extraordinário que, não tendo a ciência uma presença regular no Telejornal, esse espaço seja dado à pseudociência.
[A]penas 0,8% do tempo dos telejornais em horário nobre é dedicado à ciência, a duração média das peças de ciência no Telejornal da RTP é de três minutos e vinte e quatro segundos e 92% destas têm menos de cinco minutos. No entanto, a televisão pública achou por bem criar um espaço cativo para a pseudociência em horário nobre, a que chamou Acreditar. (...)
Em cinco dias, a televisão pública usou 41 minutos e 39 segundos do Telejornal para fazer publicidade a produtos e serviços milagrosos. Isto não é serviço público. Serviço público seria contribuir para desmistificar estas crenças. A RTP poderia fazer reportagens sobre estes assuntos. Poderia ouvir os curandeiros e recolher testemunhos de clientes satisfeitos. Mas teria que apresentar também um contraponto racional, referindo o conhecimento científico acerca do assunto, recolher também testemunhos de clientes insatisfeitos (ou será que não os há?). A televisão pública portuguesa não poderia simplesmente assumir-se como um magafone acrítico dos curandeiros e cartomantes. Porque isso não é jornalismo. É publicidade enganosa. Seria grave em qualquer contexto. Mas na RTP, que recebe dinheiro de todos os consumidores de electricidade em Portugal, incluindo dos cegos, para fazer serviço público, é inadmissível. É extraordinário que, não tendo a ciência uma presença regular no Telejornal, esse espaço seja dado à pseudociência. Não sei o que se passa pela cabeça dos responsáveis pela informação na RTP. Nem que concepção delirante de serviço público justifica esta opção. Mas isto é uma iniciativa (deliberada ou inadvertida) que contribui para acabar com a ideia de serviço público de televisão.
23 março 2014
É o mesmo Cymerman da SIC?
Então é assim: um jornalista Cymerman vai cobrir a viagem do Papa a Israel e será pago pelo turismo de Israel.
Não há problema: "The Portugal-born reporter says he sees no ethical problem in producing a campaign for a government agency".
É o mesmo homem que ganhou o "Daniel Pearl Award by the Anti-Defamation League (ADL) for investigative reporting"?
E que entrevistou José Eduardo dos Santos? A seguir vai fazer o quê? Tratar do turismo de Angola?...
E a SIC, não diz nada?
Não há problema: "The Portugal-born reporter says he sees no ethical problem in producing a campaign for a government agency".
É o mesmo homem que ganhou o "Daniel Pearl Award by the Anti-Defamation League (ADL) for investigative reporting"?
E que entrevistou José Eduardo dos Santos? A seguir vai fazer o quê? Tratar do turismo de Angola?...
E a SIC, não diz nada?
21 março 2014
19 março 2014
A banca rota
Vítor Gaspar lembra que bisavô de Ferreira Leite não quis pagar dívida:
Lido assim, o "Vitorzinho", até podia ter razão. Mas - e já que fala de antepassados -, o "Salazarinho" cujo "avô já era contabilista numa fábrica das mais importantes companhias de lanifícios do País", avô esse que era "temido pela militância activa na Legião Portuguesa, a força paramilitar de defesa da ditadura com estreitas ligações à polícia política (PIDE)", e cujo tio recolhia músicas populares, parece estar errado. Como esteve enquanto dominou as finanças em Portugal, IMHO, e nos trouxe para onde estamos.
Segundo Pedro Lains (vale a pena ler tudo - e nem sequer procurei mais sobre este "Portugal do final do século XIX viu-se sem alternativa"):
José Dias Ferreira, presidente do conselho de ministros na altura da bancarrota de finais do século XIX (de 1892 a 1893), foi, na opinião de Gaspar, quem espoletou o incumprimento soberano do país porque "Dias Ferreira rejeitou o convénio com os credores proposto por Joaquim Pedro Oliveira Martins [o ministro da Fazenda ou das Finanças na altura]". "A resposta de Dias Ferreira foi que não se devia pagar", atirou.
Na sequência de uma grave crise financeira, a bancarrota de Portugal haveria de acontecer em 1892. O governo cairia no ano seguinte.
Lido assim, o "Vitorzinho", até podia ter razão. Mas - e já que fala de antepassados -, o "Salazarinho" cujo "avô já era contabilista numa fábrica das mais importantes companhias de lanifícios do País", avô esse que era "temido pela militância activa na Legião Portuguesa, a força paramilitar de defesa da ditadura com estreitas ligações à polícia política (PIDE)", e cujo tio recolhia músicas populares, parece estar errado. Como esteve enquanto dominou as finanças em Portugal, IMHO, e nos trouxe para onde estamos.
Segundo Pedro Lains (vale a pena ler tudo - e nem sequer procurei mais sobre este "Portugal do final do século XIX viu-se sem alternativa"):
Há uma grande nuvem de fumo sobre a crise financeira de 1891-1892 por causa do aceso debate político que a rodeou. Em finais da década de 1880, as contas externas de Portugal sofreram cortes importantes em três fontes de receitas de ouro e divisas: as exportações de vinho, afectadas pela recuperação do vinho francês; as remessas de emigrantes, que baixaram por causa de problemas políticos no Brasil; e a colocação de empréstimos no exterior, afectada pela falência do corrector principal do Estado português, a casa bancária Baring Bros.
Com tudo isso veio a crise financeira. Para a resolver, num clima de instabilidade política, sucessivos governos tomaram sucessivas medidas. A primeira, logo em 1891, foi cortar nos salários dos funcionários públicos e aumentar os impostos, incluindo os impostos sobre os juros da dívida pública comprada por nacionais. Depois, foi a decisão de abandonar o padrão-ouro. A seguir, em 1892, veio o imposto para o serviço da dívida pública detida por estrangeiros. A isso se chama por vezes, impropriamente, a bancarrota. Mas Portugal não deixou de pagar, cortou com um imposto os juros em 1/3 aos credores nacionais e 2/3 aos credores estrangeiros.
Finalmente, no mesmo ano de 1892, foi reforçado o proteccionismo nas alfândegas de Portugal e das colónias. Consequências disto tudo? Boas, em geral.
14 março 2014
13 março 2014
12 março 2014
11 março 2014
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